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Retrospectiva Gian Vittorio Baldi
LUCIANO, VIA DEI CAPPELLARI (LUCIANO, VIA DEI CAPPELLARI) - 1960 - Itália - Doc
diretor: Gian Vittorio Baldi
- Sinopse
- Roma, Via dei Cappellari: a rua, as pessoas, lojas, bares, artesanato, crianças brincando. Luciano vive ali. É um ladrão, mas carrega com ele uma paixão pela vida e um sentimento de esperança em um futuro melhor.
- Créditos
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- diretor
- Gian Vittorio Baldi
- roteiro
- Gian Vittorio Baldi, Ottavio Jemma
- fotografia
- Claudio Racca
- montagem
- Domenico Gorgolini
- produtora
- S.E.D.I.
- 12 minutos
- p&b, digital
- Diretor
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Gian Vittorio Baldi
Matar e reconstruir o cinema
A 33ª Mostra Internacional de Cinema tem a honra de introduzir ao público brasileiro a força criativa de Gian Vittorio Baldi, um italiano combativo, de espírito livre, que ajudou a plantar as sementes de um cinema de ideias que resiste (felizmente) no presente.
Formado no Centro Nacional Experimental de Cinematografia de Roma, Baldi aparece, desde os primeiros curtas-metragens, como o grande cineasta
italiano da palavra e do som. Em seus filmes, a palavra é o maior evento.
Uma palavra não necessariamente espontânea, mas recriada, reinterpretada diante da câmera, transformada pela relação próxima que o cineasta
estabelece com seus personagens, sejam eles de documentário ou ficção.
Personagens do povo, sempre minúsculos, às margens da lei, da morte ou do exílio.
Os filmes deste pouco conhecido diretor e produtor, nascido em 1930 na província de Emilia-Romagna, ao norte da Itália, revelam uma visão de mundo radical, uma preocupação com a realidade e o destino das classes mais pobres que os colocam em pé de igualdade com as maiores obras do neorrealismo italiano.
Três de seus primeiros curtas-metragens são premiados em festivais internacionais: Parabola d’Oro (1956), laureado em Cannes; Il Pianto delle
Zitelle (1958) e La casa delle tredici vedove (1960), vencedores do Leão de Ouro de melhor curta em Veneza. Mas é um outro curta, Luciano (via dei Cappellari) (1960) que lhe aponta o caminho da direção de longas-metragens.
Inspirado na rotina de um ladrão que vivia de pequenos golpes em Roma, o filme é interpretado pelo próprio ladrão, Luciano Morelli. O personagem
resistiu como tema de seu primeiro longa-metragem, Luciano, una vita bruciata (1962).
Disse Baldi à época: “É um personagem extraordinário, um pequeno ladrão que não conhecia nada da vida. Mudou-se para Roma, onde estavam a televisão, o cinema e a polícia. Não conhece nada a não ser sua pequena moral - ou sua amoralidade. Um selvagem que colhe frutos quando tem fome e rouba para alimentar sua família. Está convencido de que é justo; não tem nenhuma curiosidade sobre o resto do mundo”.
Sobre o filme, o crítico italiano Roberto Nepoti escreveu: “Baldi prova que, quando bem observados, os personagens mais humildes tornam-se muito
expressivos, seja um grupo de velhinhas ou um jovem ladrão de Roma. Sua técnica inovadora de filmar permite uma melhor captação da realidade, além de reduzir os custos da produção”. Nada mais alinhado com os princípios do neorrealismo.
Sete anos mais tarde, Baldi realiza seu filme mais aclamado pela crítica. Em Fuoco! (1969), um homem desempregado atira em uma estátua religiosa durante uma procissão em seu vilarejo e depois mata parte de sua família, até entregar-se a um policial paciente que fala com ele o tempo todo de fora da casa. Filmado cronologicamente durante 14 dias seguidos, em 16mm e som direto, com o menor número possível de intervenções técnicas, o filme é excessivo, mas sua desmedida está à altura da crença de Baldi no cinema. Uma metáfora do poder que remete aos impasses de uma sociedade que perdeu a razão.
Ao longo dos anos, o cineasta continuou a dirigir seus filmes sensíveis e engajados, até Nevrijeme - Il Temporale (1999), retrato da dura convivência entre etnias e religiões em tempos de conflito, no caso a Guerra da Bósnia em 1992.
A força realista de seus primeiros documentários, que mais tarde derivou em grandes filmes de ficção sempre ancorados nos temas prementes de seu tempo, encontra paralelo na obra de um colega italiano, este nascido no sul do país: Vittorio de Seta, autor de Banditi a Orgosolo (1961) e do mais recente Cartas do Saara (2006), vencedor do Prêmio Humanidade na 30ª Mostra.
Enquanto Seta filmava os fazendeiros e pescadores humildes do sul, personagens mais em harmonia com o mundo, Baldi, ao norte, filmava o povo de
Roma e Turim, pessoas mais sofridas e afetadas pela História. Em ambos os diretores, no entanto, segundo o crítico Patrick Leboutte, “o mesmo desejo de filmar a cultura popular como uma experiência pessoal, recriar a realidade de dentro pra fora”.
Como produtor, Baldi ajudou a fomentar um cinema independente que firmou a linguagem moderna dessa arte nos anos 60 e 70. Seu trabalho prolífico nessa área fez com que 28 longas-metragens e cerca de 200 curtas-metragens viessem à luz.
Em meio a filmes remarcáveis, produziu Pasolini em duas de suas obras mais radicais dos anos 60: Pocilga (1969), o primeiro filme italiano a tratar diretamente do tema da homossexualidade; e Notas para uma Oréstia Africana (1970), documentário de olhar inovador e nada eurocêntrico sobre a África. Deu suporte a diretores italianos menos conhecidos (Gianfranco Mingozzi, Nelo Risi, Dacia Mariani, Francesco Longo) e cineastas franceses que hoje estão entre os maiores nomes do cinema moderno - Jean-Luc Godard e seu manifesto político Vento do Leste (1969); Robert Bresson, mestre do naturalismo, em seu Quatro Noites de um Sonhador (1971); a dupla Jean-Marie Straub e Danièle Huillet (mais conhecida no Brasil por Gente da Sicília) em Crônica de Anna Magdalena Bach (1968); e mais tarde, Pierre Kast em La Guerrillera (1982).
Uma frase dita por Baldi em 1967 resume seu ideal revolucionário, seja na direção ou na produção de filmes: “Eu queria ajudar o cinema a morrer;
acelerar esse processo. Parece-me que a única maneira de continuar tendo ideais é começar de novo e reconstruir tudo o mais rápido possível”.
Thiago Stivaletti

