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Retrospectiva Theo Angelopoulos
O PASSO SUSPENSO DA CEGONHA (TO METEORO VIMA TOU PELARGOU) - 1991 - Grécia, França, Itália, Suíça - Ficção
diretor: Theo Angelopoulos
- Sinopse
- Enviado à zona de fronteira da Grécia para fazer uma reportagem, jovem jornalista descobre uma cidade dividida ao meio por um rio. Ele observa um casamento surreal em que a noiva e sua família estão em de um lado e o noivo e seus parentes do outro, perdidos sob o céu frio. Essa remota cidade fantasma é chamada de “sala de espera” pelos moradores, a maioria refugiados de diferentes países, que esperam sua vez de sair e começar uma nova vida “em algum lugar qualquer”. No curso da investigação, ele também descobre um idoso, refugiado recluso, que cultiva batatas. Mas o jornalista acredita que ele é um famoso político grego, desaparecido anos antes, que deixou um rastro de perguntas sem respostas.
- Créditos
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- diretor
- Theo Angelopoulos
- roteiro
- TheoAngelopoulos, Tonino Guerra, Petros Markaris
- fotografia
- Giorgos Arvanitis, Andreas Sinanos
- montagem
- Yannis Tsitsopoulos
- música
- Eleni Karaindrou
- elenco
- Marcello Mastroianni, Jeanne Moreau, Gregory Karr, Ilias Logothetis, Dora Chrysikou
- produtor
- Bruno Pesery, Theo Angelopoulos
- produtora
- Greek Film Centre, T.Angelopoulos Productions, Arena Films ,Vega Films,Erre Produzioni
- 140 minutos
- color, 35mm
- Diretor
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Theo Angelopoulos
Uma viagem ao centro do homem
Quando Theo Angelopoulos concluiu seu primeiro curta, I Ekpombi (The Broadcast), em 1968, a Grécia ainda aprendia a viver sob a violenta ditadura
militar instalada no ano anterior, que derrubou a monarquia de Constantino II. Ex-crítico de cinema, ele antecipava desde os primeiros filmes, com
olhar melancólico, o esfacelamento dos Bálcãs, a decadência da mitologia e os diversos êxodos de seu povo.
No mundo, as transformações políticas e sociais eram refletidas na tela por grandes cineastas que lapidaram a linguagem do cinema moderno: Antonioni,
Bertolucci, os irmãos Taviani, Glauber Rocha, Oshima. Hoje, mais de 40 anos depois, alguns morreram, outros pararam de filmar, outros seguem caminhos
diversos de sua origem.
Angelopoulos segue com o mesmo vigor estético, um sentido do tempo igualmente denso e refinado, os longos planos-sequências que abarcam
diferentes paisagens, tempos e estados da alma. Uma câmera que atravessa as grandes crises do nosso tempo, o eterno embate do homem com suas ideologias, suas derrotas, e o eterno retorno às origens. Em seu cinema, o homem e sua consciência esculpem a História, não são simplesmente arrastados por ela. Em uma mesma cena, em um mesmo plano, convivem o olhar e a existência, a poesia e a filosofia.
Uma frase do diretor resume bem o espírito de sua obra: “Um filme é uma aventura humana significativa. O significado emerge quando uma aventura
exterior consegue se transformar em uma aventura interior”. Ao contrário dos road movies, em que os personagens viajam sem um objetivo definido, os
filmes de Angelopoulos são iluminados por heróis que empreendem uma jornada pessoal em busca de algo ou alguém que serve de metáfora a um tempo perdido, um paraíso perdido, a inocência perdida. Nas palavras do diretor: “Em um mundo moderno onde tudo virou de cabeça pra baixo, tudo aparece enlameado ou obscurecido pela neblina”.
Sua obra pode ser classificada em três fases: um primeiro período de filmes históricos e políticos, produzidos em um momento de turbulência ideológica na Europa Ocidental; um segundo período em que o foco recai sobre os personagens, tendo a história e a política como pano de fundo; e um
terceiro, mais existencial, centrado no destino humano, nos quais temas como as fronteiras (exteriores e interiores), o exílio e a busca de uma origem perdida compõem fragmentos de uma longa e dolorosa elegia.
Na definição do crítico americano Michael Wilmington: “Dizem que na Grécia as pessoas comuns amam e falam poesia. De modo incomum, Angelopoulos
encontra poesia na corrupção, na traição e no testemunho: em crianças alienadas de seus pais, em um país alienado de sua herança, na paralisia do
amor, na impossibilidade da arte, nas névoas da morte. Acima de tudo, no rico e ressonante silêncio em torno dele: o silêncio da História, da terra,
das montanhas, céus e mares. Tudo com o olhar fixo através do qual, como (o escritor Joseph) Conrad, ele finalmente nos faz ver”.
A Mostra Internacional de Cinema retoma em sua 33ª edição uma admiração de longa data por esse grande cineasta contemporâneo. Admiração que começou com Viagem a Cithera (1983), exibido na
8ª Mostra. Prosseguiu com Paisagem na Neblina (1988) e O Passo Suspenso da Cegonha (1991), apresentados na 15ª Mostra, e Um Olhar a Cada Dia (1995, 19ª Mostra). Em 1996, quando apenas dois de seus filmes haviam estreado comercialmente no Brasil, a 20ª Mostra dedicou-lhe uma retrospectiva
completa de sua obra que incluía sete títulos inéditos no país, do início da carreira. A relação continuou depois com A Eternidade e um Dia (22ª Mostra), Palma de Ouro em Cannes em 1998, e O Vale dos Lamentos (2004, 29ª Mostra), primeira parte de uma trilogia que discute as raízes da Grécia no século XX.
Na 33ª Mostra, além da revisão de suas obras-primas, é hora de conhecer sua mais nova aventura, a segunda parte da trilogia, A Poeira do Tempo (2008).
Boa viagem.
Thiago Stivaletti
Saiba mais sobre o diretor em www.theoangelopoulos.com


