Chevalier de l`Ordre des Arts et des Lettres

Leon Cakoff, diretor da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, recebeu na noite do dia 25 de junho a Medalha da Ordem das Artes e das Letras do governo francês, sendo nomeado Chevalier de l`Ordre des Arts et des Lettres pelo cônsul da França em São Paulo, Sr. Jean-Marc Gravier, em nome da Ministra da Cultura e da Comunicação da República Francesa, Sra. Christine Albanel. Na ocasião, Jean-Marc Gravier ressaltou que a distinção se devia ao trabalho desenvolvido por Leon Cakoff pela difusão não só da cultura francesa, mas da cultura cinematográfica mundial, lembrando que o homenageado começou como crítico de cinema e prosseguiu com a criação da Mostra Internacional de Cinema.
A seguir, o discurso emocionado que o homenageado leu na cerimônia:
“Senhor Cônsul da França em São Paulo e Senhora Jean-Marc Gravier, prezados amigos aqui presentes,
Gostaria de repartir com vocês a emoção muito especial que esta homenagem representa para mim. Não sou francês de nascimento, mas sim de coração, de resistência e de formação.
Por não ser francês de nascimento, sofri junto com a minha família as consequências por haver abraçado a cultura francesa num meio hostil, em Alepo, na Síria, onde meu pai era um membro do governo empenhado em fazer a cultura francesa semear as suas influências e espalhar os seus conhecimentos. Ele não conseguiu. Na segunda metade dos anos 50, com o advento do nasserismo e o surto nacionalista cujos reflexos até hoje observamos no Oriente Médio, meu pai foi perseguido e perdeu seu poder e a nossa família perdeu a sua paz. Como minoria armênia e influenciados pela cultura francesa, caímos todos em desgraça.
Graças a parentes armênios no Brasil, fomos salvos e tivemos a nossa viagem de fuga para São Paulo garantida. E esta foi a primeira lição aprendida de que a diversidade cultural é o melhor antídoto contra a intolerância. Certamente teria ido parar na França como grande parte da colônia armênia que sofreu o primeiro genocídio no começo do século 20, se não tivéssemos tido o patrocínio de nossos parentes ricos no Brasil.
Em 1915, no genocídio, meus pais somente foram poupados da morte por serem crianças com menos de seis anos de idade. Pouca coisa mais velho, eu sou a criança que veio parar em São Paulo no segundo exílio de meus pais, atônito com a descoberta de uma nova América, com a França como inspiração e para sempre no meu coração.
A França da resistência e da liberdade, descubro como todos os jovens de 68, nas barricadas de todo o mundo, lutando por mudanças e por vida inteligente. No Brasil tínhamos a ditadura militar tentando nos calar. Mas de novo a cultura francesa era uma referência fortificante. Como cinéfilo, a Nouvelle Vague dava-nos um norte e os impulsos da transgressão.
Devo em seguida mais uma vez aos franceses o melhor da minha formação e a coragem de sugerir o novo em meu próprio meio, ainda sob a mordaça da ditadura. Vou ao festival de Cannes pela primeira vez em 1971 e lá colho os primeiros frutos das rupturas e das ousadias ensaiadas em maio de 1968. Vejo filmes que me servem como lição de vida e grande aprendizado, de resistência e de mudança. Quero ser um agente para as suas promoções e circulação pelo Brasil, mesmo estando o Brasil sob forte censura e sem liberdade de expressão.
A França e o seu magnífico Festival de Cannes foram e ainda são como a minha segunda faculdade, a minha pós-graduação de humanismo, tolerância e diversidade que não pretendo concluir jamais. O cinema todo que vivi foi a minha inspiração para lançar-me no desafio de transpor as fronteiras do repórter para experimentar novas receitas de instigação. Juntei mais um pouco de coragem e fui programar cinema no MASP. Mais uma vez a França e sua política cultura estiveram do meu lado, agora como cúmplices. Jamais esquecerei que foi graças a uma ação clandestina e de solidariedade com o consulado da França em São Paulo que consegui montar os meus primeiros ciclos de filmes inéditos em São Paulo, furando o cerco da censura com o transporte dos filmes dentro das malas diplomáticas francesas.
Nos primeiros anos da Mostra Internacional de Cinema, as malas diplomáticas francesas continuaram contribuindo para minar a ditadura e espalhar idéias de resistência e criatividade. E a França, ao contrário da política cultural de muitos outros países, nunca abandonou esta sua vocação.
Acredito que certamente todos os amigos aqui presentes concordam com estas minhas observações e também eles tiveram e tem como eu a felicidade de descobrir, comungar e repartir a rica e generosa diversidade cultural francesa com os seus próprios anseios e projetos. Além de tudo, a França é o melhor exemplo de diversidade e tolerância cultural para o mundo. Ele é o país que mais investe pela aproximação dos povos; é o país que mais investe na co-produção de filmes com cineastas dos quatro cantos do mundo, inclusive com o Brasil.
Muito do que aprendemos a gostar e muito do que nos emociona no cinema é consequência desta admirável política cultural. E é esta paixão que segue me nutrindo e movendo. É como se nunca tivesse perdido o sabor infantil de quando lia meus primeiros gibis em francês, ouvia minha mãe no exílio cantarolando canções de Tino Rossi; de quando via meus primeiros filmes da Nouvelle Vague na adolescência, ou lia as críticas francesas com a curiosidade e a certeza de com elas iriam me decifrar os enigmas do mundo.
E é com sinceridade que digo: tudo que fiz ao longo da vida foi motivado pela necessidade de repartir os meus conhecimentos e lutar contra a intolerância. Guardo vivas as imagens absurdas de intolerância que registrei na minha memória, então um menino de seis anos, que viu do balcão da sua casa em Alepo a escola francesa de minhas irmãs sendo queimada pelos nacionalistas radicais. Tirei desse triste episódio a grande lição de minha vida: não é censurando que se combate um conceito ou uma idéia e sim promovendo a sua circulação e discussão democráticas.
Esta distinção que agora recebo do governo francês, sendo nomeado Chevalier de l´Ordre des Arts et des Lettres pela Madame Christine Albanel, Ministra da Cultura da França, reparto com todos os amigos e familiares aqui presentes. Foi com todos vocês que tive ao longo da vida o estímulo e a coragem de seguir adiante. Muito obrigado a todos.”
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Um lindo discurso, perfeito para uma circunstância tão honrosa!
O cinema mostrou-se uma forma muito eficaz de combater a intolerância, e investir na sua expansão é importantíssimo para garantir que ele continue a ser.Enquanto houver quem o respeite,a liberdade de expressão está garantida.
Parabéns !
Ele merece!!!
Parabens Leon, le Chevalier!!
Super merecido!!
Felicidades!
Um forte abraco!
Só hoje,29.09.09 estou lendo sobre s sua condecoração recebida em jjunho.Cumprimentos merecidos.Espero que continue com a Mostra por mais 33 anos pelo menos.